Sim, isso aconteceu na cidade de São Paulo nos anos 90.

Uma iguana e um gato..
Como se sabe a iguana é um réptil e seu habitat são as florestas úmidas e os cerrados.
Como se sabe o gato é um gato! O seu ambiente é o colo da dona, a casa da dona, a cama da dona ou os telhados dos vizinhos.
Porque a vida é mesmo louca a iguana e o gato foram morar na mesma casa.
No caso a nossa casa, a primeira, constituida por uma familia aparentemente normal, mas assim como TODAS, com suas peculiaridades.
Neste caso especifico : A minha.
Moravamos nesta época, eu, meu pai minha mãe e dois dos meus irmãos,que diga se hoje somos seis .
Por questões filosóficas,hippismo ou sei la o que,ali se vivia tudo muito na prática . Era um laboratório de vida.
Meu irmão amado, caçula e cheio de personalidade gostava de animais exóticos apoiado pelos outros homens da casa .
Equanto nós as mulheres, de animais domésticos,claro.
Por lá viveram todos as espécies: coelhos, cachorros, pato, galo, rato, sapo, aranha e cobra.
Que fique claro, não era uma casa nem um sitio. Era um apartamento normal, em Perdizes.
Então neste momento da vida, eramos 5, + a iguana + o gato.

O gato veio primeiro, gordo e amarelo. A iguana chegou depois pequenininha e arisca.
Durante o primeiro ano de vida ela viveu num aquário, comendo comidas especiais e sendo (mal) tratada como um animal exótico num cativeiro.
O gato vivia solto, no colo com ração e carinho.
O tempo passou, ela cresceu e cresceu tanto que um dia sabe se lá como ela saiu do aquario e se perdeu pela casa.
Porque nessas familias modernas as coisas acontecem assim, foi decidido sei lá por quem, que viveriamos todos soltos. Cada um responsável por descobrir seus próprios limites.
Então a iguana passou a viver solta no apartamento e com o passar do tempo, tomou as rédeas do seu destino.
Assim como nós, os filhos , assim como eles, os pais.
A iguana não tinha referências e se virou como pode , como costumamos fazer em situações extremas: ficou amiga do gato e das pessoas.

Corta. Os fatos que se seguem podem até parecer mentira,mas são a mais pura verdade.

A iguana então passou a viver a vida do gato, comer a ração do gato, tomar sol em cima do sofá e banho de chuveiro.
E foi ficando dócil, gostava de receber carinho na cabeça, entre os olhos, tal qual o gato.
Aquilo tudo soava estranho mas conviviamos todos juntos aprendendo com os animais, com os nossos pais, com os programas de tv , os professors na escola e o privilégio da democracia.
Creio que foi a primeira crise de identidade que vi de perto.
Isso antes de me tornar adulta, ter de lidar com as minhas próprias e acompanhar a dos meus amigos.
O gato tb estranhava, mas menos. claro, as vezes ficava olhando o aquário, agora vazio e tentando entender a ordem das coisas.
Foram 7 anos e ela chegou a ter cerca de um metro e meio , da cabeça ao rabo.

Corta. O que eu vou escrever agora pode parecer mais mentira que o parágrafo acima,mas não é.

Copa do mundo.1998.O Brasil chega empolgado a final após uma boa campanha nas fases anteriores, mas a partida foi marcada por um nebuloso acontecimento envolvendo o centroavante Ronaldo "o fenomêno" e a seleção acabou derrotada.
Nunca gostei de copa do mundo mesmo.

Então estou eu, sozinha em casa e toca o interfone. O porteiro assustado me avisa que ela caiu da janela. eu desço e ela está viva, embrulho no casaco e a levo no veterinário. No meio do jogo do Brasil, No meio da final da copa do mundo.
Ela fica 24 horas em observação, não resiste, morre.
Suicidio? Homicido? acidente?

Ou seria apenas a melhor lição. Aquela que se vê na prática.
Ela soube ser o que podia. Viveu como gato, viveu como humano e provavelmente viveu com uma angustia louca , se é que animais silvestres sofrem disso.
Então deixou aquela lição tão piegas e óbvia de que tua identidade deve ser construida para que a tua realidade imaginária não te absorva de forma que não possa se sustentar .
Depois de anos, várias vezes me vejo enrolada, Tentando ser gato, leão , serpente, adulta ou criança.
Tenho uma marca de roupas. as vezes me canso do meu universo, quero ser outra.
E não dá certo. então eu volto e encontro a paz. Mesmo que ela seja momentânea
Fazer o que te sai fácil é a forma mais verdadeira de achar o teu eixo.
O que é teu, é aquilo que vc domina. E o que vc domina sai do coração.
Não tem regra nem explicação. A receita para a busca da identidade é a vida, e a sorte, além do privilégio do destino te encaixar no seu habitat.

Obs* gostaria de deixar claro que sou contra animais silvestres dentro de casa ou qualquer tipo de animal ou ser humano for a do seu habitat e que os fatos narrados, veridicos até o osso se passaram outros tempos, aqueles memos tempos em que não se usava cinto de segurança, protetor solar , tartaruguinhas marinhas eram vendidas na porta da escola e pais costumavam ser casados e familias viviam juntas

3 comentários:

I. Filcovich disse...

Que linda história! E história com "h", porque acredito nela, sim! Ela soa como uma fábula maravilhosa, algo que poderia ter acontecido com qualquer um.

Eu moro sozinha e hoje tenho meu superamado cachorro Melvin Woo e meu supergato Petit Gateau. Na minha casa já tivemos peixinhos dourados, outros nem tão dourados, tartarugas, tatus-bola e outros animais. O que posso dizer? A vida fica muito mais doce na presença deles, não importa se você é leão, zebra ou borboleta.

Beijos!

BelaCavalcanti disse...

Muita linda a maneira como voce escreveu essa historia, Rita. Mas o dificil eh identificar qual eh o nosso habitat - construtivista que sou, por natureza e ideologia, saio me adptando aos 'habitats' por onde passo. Uns sao melhores, outros nao tao bons...mas todos eles me ensinam sempre algo.
ADOREI. Que Deus lhe abencoe e umbom final de semana.

Anônimo disse...

Acho que nada mais posso dizer além de que sua escrita e sua história são encantadoras.

C.

G.A